Muitos amigos e até mesmo triatletas do mundo online me perguntaram sobre o blog, se ia postar, seria o fim do blog!!! Atingi o meu objetivo inicial, porque continuar agora! O que fazer com o blog.
Poderia colocar apenas sou um IronMan e ponto, estaria realizado, mas não seria da minha natureza algo assim, tão frio, evidente que vou detalhar, mas detalhar tudo mesmo, então nem sei quantas partes farei até falar do momento final, só digo uma coisa, se você não tiver com paciência em ler, não leia, pois vou escrever tudo o que lembrar nos mínimos detalhes, não quero me esquecer de nada quando ler novamente esse post daqui alguns anos, quero ver meus erros e também ver o quanto fui audacioso, sempre pensei assim: nunca me arrepender do que fiz e sim do que deixei de fazer.
Acordei-me as 3 da manhã de domingo, dia 29 de agosto de 2011, tinha dormido 7 horas corridas, nunca pensei que fosse conseguir dormir tão bem um dia antes de uma grande prova, em qualquer prova que participe, desde as mais simples até as mais importantes não consigo dormir bem, são pouquíssimas horas de sono, mas dessa vez foi diferente, tudo começou bem, comi na noite anterior muito massa com molho branco que minha esposa fez, estava maravilhosa, lembro que levei um gatorade pra mesa a pedido do coach Rodrigo, me pediu para tomar três durante o dia, nos dias que antecederam a prova.
Estava tudo arrumadinho, tinha que descer as escadas e tomar um café e sair para o local da prova que ficava a uns 8k da pousada, tomei um café bem conservador, suco, algumas frutas, queijo, uns pedaçinhos de bolos, mas não comi demais, estava bem “estufado” da massa que comi na noite anterior.
Saímos de carro em direção ao P12 e conseguimos chegar bem cedo, pegamos um excelente lugar para colocar o carro, muito perto da transição, isso é importante, pois levar a bike até um lugar longe poderia ser bem difícil.
Entrei cedo na área de pintura, tinha mais staffs do que atletas, notei que cheguei cedo mesmo, me pintaram, fizeram uma gravação, talvez saia no dvd de 2011, fui até a minha bike pra ver como estavam as coisas.
Levei as sapatilhas no dia, pois o Rodrigo me disse que o ideal é levar elas no dia da prova.
Decidi fazer algo diferente um dia antes, colocar os saches de gel, eram 6 ao total na bike, iria colocar todos colados no quadro com esparadrapos igual a um argentino que vi fazer, parecia simples e achei interessante porque me desocuparia espaço nos bolsos do top, onde tinha que colocar as mariolas de banana, as bisnaguinhas salgadas e as cápsulas de sal, consegui ajustar os géis de uma maneira descente, não quis levar o meu bento box porque ele me incomodava, se eu colocasse na parte da frente do quadro me roçava nas pernas na hora do pedal e o mesmo acontecia se colocasse embaixo do banco, então optei em nem levar esse acessório que para muitos é essencial.
Queria calibrar meus pneus, mas fiquei com medo de calibrar errado, de fazer algo errado, os bicos da roda que aluguei eram muito grandes, pensei que poderia ser complexo e decidi pedir ajuda para uns dos mecânicos que estavam no local calibrando os pneus, pedi pra ele colocar 105 libras em cada pneu, exatamente isso não me pergunte por quê!!! mas pedi 105 libras e foi exatamente isso que colocou pra mim.
Perto de mim tinha um italiano que veio puxar assunto, mas fomos breve e também teve um cara que conversei rápido, não lembro bem dele, mas lembro da bike dele uma Quintana Roo linda demais, era verde-limão, acho o design das Quintanas são demais e essa era show de bola.
Fiquei numa parte que ficava a uns 20 metros da Fernandinha, tinha um curralzinho que nos separava, mas dava pra conversar, pegar alguma coisa e tal, notei que todos estavam tensos ali, parecia que as pessoas que iam ver a prova estavam mais tensas do que a gente que ia fazer, é serio. Repeti demais a palavra “que” na ultima frase, pelo menos foi o “que” o world me falou, deixa pra lá.
Tinha ido ao banheiro antes de sair da pousada, mas não tinha saído nada, então decidi usar os banheiros químicos do evento, é curioso que tinham muitos, mas muitos banheiros no evento, mas dentro do curral que tinham uns 1700 atletas tinham apenas 6 banheiros e dos seis, dois eram femininos. Fiquei um bom tempo na fila e pensei o quanto foi bom ter saído bem cedo, o tempo tinha passado rápido demais e logo, teria que ir para a área da natação. Lembro-me que vi na fila o Ezequiel Moralles, 2º lugar no IM de 2010 e 3º nesse ano, estava ali, como qualquer um mofando na fila pra dar uma cagada, isso é legal no triathlon, dividir fila de banheiro químico com profissional, também vi a Solead, 3ª no IM do ano passado, na fila do banheiro.
Consegui reconhecer o Daniel Blois, dizia no casaco dele o nome e deu pra dar um abraço e desejar uma boa prova.
Entrei na parte onde ficavam as sacolas pra verificar se estava tudo ok e estava, vesti a roupa de wetsuit da orca apex que comprei do Marcelo Boeira, triatleta de Santa Maria, estava também com um óculos da hammerhead que comprei na Neca Esporte por uns vinte poucos reais, decidi que usaria o elástico dos óculos por baixo da touca, pois tinha medo que alguém na hora da “trocação” me tirasse o óculos da rosto, seria muito, mas muito duro de continuar sem o óculos, algo simples, e acabou a prova.
Coloquei esparadrapo no pescoço pra não assar, mas aquele que gruda mesmo, quando tira da aquela dorzinha chata, não quis passar vaselina, porque me falaram que vaselina estraga a roupa, só sei que peguei um pote de vaselina solida que colocaram para os atletas e usei muito, em todas partes possíveis de assar do corpo, nem pensei na roupa.
Tinha levado comigo um gatorade fechado e um gel, pois tinha tomado o café as 3:30hs, e a largada seria as 7:00hs, uns quinze minutos antes seria ideal consumir algo pra não fraquejar logo na natação.
Quando sai da tenda para ir para o local da natação me deparei com muitos banheiros, ali dentro do curral, e os palhaços fazendo um filão pra usar seis, enquanto no outro lado tinham uns vinte banheiros sem uso, me lembro de ter visto a Hilary Biscay indo para um dos banheiros, um dia antes não tinha conseguido tirar uma foto com ela na coletiva de imprensa, tirar uma ali com os banheiros de fundo seria lindo demais, mas porque estou falando disso!!!
Sai em direção a praia e senti meus pés frios demais, o chão estava gelado, mas muito gelado, eram 6:30hs, achei que não veria mais a Fernandinha, mas passamos em frente ao carro e ela estava ali, e fomos juntos até a área de largada da prova, me lembro claramente que a minha frente tinha duas mulheres, uma era a Ana Lidia Borba, uma atleta de superação total, com uma incrível história, difícil de prever que ela teria mais um dia DURO pela frente.
Ela caminhava por uma trilha de pedras de pés descalços e eu não estava agüentando, aquilo me incomodava, falei pra Fê que meus pés estavam doendo e tinha que ir pela beira da calçada pegando uma parte da grama, onde era bem mais confortável, mas para a atleta baixinha que estava na minha frente parecia normal, já tinha passado por coisas muito piores do que uma calçada com pedrinha soltas.
Lembro-me que antes de entrar na área de largada, me despedi da Fê pela penúltima vez e tomei um gatorade com gel, isso quinze minutos antes da largada.
Quando entrei naquela área notei que não tinha mais volta, sei como sou, posso ser um merda tecnicamente, mas sou metido, vou até o fim.
Comecei a olhar para os lados, não achava ninguém conhecido, pelo menos para ficar do lado e tal, muito gente mesmo. Lembrei-me que o Marlos falou pra mim, que tinha que fazer um bom aquecimento, ainda tinha 15 minutos, e fui isso que fiz, corri pra la, dei piques pra ca, alonguei, não quis aquecer na água antes, estava frio demais, eram 6:50 da manhã, pensei que quando entrasse na água seria pra valer. Olhei atletas se emocionando demais antes da largada, cada um tem a sua história, cada um tem seu ritual.
Tentei puxar assunto com alguns triatletas, mas as duas vezes que tentei, uma foi com uma senhora e ela disse que não falava português, somente inglês, e na outra vez veio o maldito espanhol, não agüentava mais o espanhol.
Fui ver a Fernanda que agora estava por perto novamente e curiosamente perto dela estava a Silvia da Raia-Sul e o Frank Silvestrin, atleta de elite e técnico da equipe de Poa, O Frank não foi para participar da prova, mas estava la para ajudar o pessoal, fiquei conversando com a Fernanda, vi ele dando um toque para a Silvia, vai bem para o lado esquerdo, pois a correnteza esta jogando o pessoal da esquerda para a direita, ali tive aquela sorte de principiante, pois estava totalmente do lado direito, onde tinha bem menos atletas, talvez por essa razão que não entendia, puxei assunto com o Frank, falei que era de Rio Grande da equipe nova Ironsul e tal, ele me disse, vai pra la, e me desejou uma boa prova.
Chegando la faltavam uns 2 minutos para a largada, e comecei a me tocar, pensei, não pode ser, o dia esta lindo, não estou sentindo nada de estranho no meu corpo, sempre sinto algo antes das provas, durmo mal, dor no joelho, no ciático, mas dessa vez não tinha nada, me sentia inteiro, tentava achar algo, me tocava e vi que não, não tinha nada e estava pronto para o desafio.
Naquele um minuto que faltava para a largada me passou um filme.
Desde o dia em que me inscrevi, me lembro quando fiz a inscrição, poucas horas depois elas foram esgotaram e eu nem sabia se realmente queria fazer o IM, apenas imprimi o boleto e pensei que poderia pensar se pagaria ou não, também tinha a possibilidade de pagar a inscrição em 3 vezes, se fosse como é agora estaria fora, pois não teria nem a certeza se queria fazer o IM nesse ano e também não teria a grana para pagar à vista a inscrição, foram fatores de sorte que me ajudaram, parecia que estava escrito para eu fazer o IM.
Sem contar a sorte que tive quando o clube de natação fechou e o Pedro me conseguiu o Camarig para eu nadar, foi em uma conversa antes de uma corrida de 10k que falei que estava com esse problema na natação e minha natação é um problema!!! Consegui nadar várias vezes no Camarig, porque o Clube onde nado estava sempre com a piscina estragada.
Também estava com uma excelente bike para competir, ela apareceu e era de um amigo virtual, Marcelo Boeira, que comprou de um outro amigo Ironman Deco, do blog Na Roda. Lembro – me que comentei com ele em um email que se não tivesse em função do IM tentaria comprar a bike, e ele me disse, Kiko vai lá e faz o IM, depois tu me paga a bike em suaves parcelas, mais um anjo que caiu do céu pra mim.
Todos meus amigos tiveram parcelas importantes, mas o Emerson teve uma parcela forte demais, é difícil de entender um cara querendo saber como tá teu treino, ele já fez muitos IMs, e eu nenhum, nunca nos vimos e nas poucas vezes que conversamos ele sempre foi o primeiro a puxar a conversa, sempre me acalmando e dizendo palavras que me davam confiança de que conseguiria fazer a prova, me ajudou demais contanto toda sua experiência em IMs, seus relatos, seus erros, facilitou demais a minha caminhada, disse pra mim confiar no meu técnico, Rodrigo Tosta, que me largou na “ponta-dos-cascos”. E disse pra mim: vou esta lá pra te dar aquele abraço no pórtico, ele também sempre me acalmou e disse que estava na direção certa.
Os olhos encheram de lágrimas, mas nenhuma caiu, não deu tempo, soou a buzina da largada para o IM, começou a caminhada que demoraria 12 horas e 5 minutos e 12 segundos.
Largada do Ironman 2011:








4 comentários:
Kiko, essa tua frase é super verdadeira - "parecia que as pessoas que iam ver a prova estavam mais tensas do que a gente que ia fazer". Eu assisti o Ironman 2 anos (2002/2003) e senti o mesmo nervosismo momentos antes da largada do que o pessoal que largou; dor de barriga, respiração e coração acelerados, pernas inquietas, etc.
Estou esperando agora as outras 3 (pelo menos) partes do depoimento, que devem ser as mais interessantes.
Mas agora tira esse banner do site dizendo "Eu vou", ou coloca um "Eu fui".
Queremos mais hehe...isso foi apenas a introdução, não deixa passar nada.
Abraço
Tá muito massa teu relato, Kiko!!
Imagino como as pessoas devam ficar nervosas na largada....fiquei ansioso só de ler!!!
Não esqueça de postar as fotos!!!
kiki, obrigado pela visita e pelas palavras.
Meu caro... provão foi a sua... totalmente concentrado... fixado... sentando o caneco no pedal...
Parabéns pela excelente prova... muito show !!!
Nos encontraremos em breve...
Abcs
Postar um comentário